Aula 20

29April, 2007

Sumário: Algumas reflexões sobre a manipulação

1)      Das duas perspectivas para a palavra manipulação que já vimos (escolher uma parte da realidade e apresentá-la unicamente para servir determinado interesse ou alterar/fabricar/mentir sobre a realidade e apresentá-la para servir determinado interesse) interessa-nos a segunda;

 

2)      Até que ponto a manipulação pode chegar, sem ser descoberta, influenciando a opinião pública?

 

3)      Serão analisados na aula alguns casos:

a) «Durante a guerra do Kuwait (invadido pelo Iraque em 1990), «O público rapidamente ficou a saber que o Kuwait era uma democracia que desabrochava no Golfo e que as suas mulheres recusavam o véu e conduziam automóveis. Soube também que os soldados iraquianos violavam e pilhavam à medida que avançavam no Kuwait, indo ao ponto de arrancarem indefesos bebés prematuros das suas incubadoras com o intuito de levar as máquinas para o Iraque. Foram também informados de que Saddam Hussein era Hitler» (Nelson Traquina, O poder do jornalismo, Coimbra: Minerva, 2000, pág 114). Mas… Texto a desenvolver na aula

b) «Na segunda-feira, o famoso animador televisivo David Leterman decidiu exibir um clip com as imagens de Tyler [Crotty] anunciando uma nova rubrica no seu programa nocturno, a qual se chamaria «George W. Bush estimula a juventude da América!». Na manhã seguinte, o noticiário da CNN mostrou as imagens do «clip» e a apresentadora Daryn Kagan comentou que era estranho que ninguém junto de Tyler tivesse reagido aos seus esgares. Depois de um intervalo para publicidade, Kagan regressou: “Dizem-nos da Casa Branca que a imagem da criança foi montada naquele vídeo, o que explica a razão por que as pessoas não reagiram» (Expresso/Única, 9/04/2004, pág. 20). Texto a desenvolver na aula.

c) «A jornalista JUDITH MILLER acaba de ser despedida pelo New York Times (NYT) depois de ter passado quase três meses na prisão por se ter recusado a identificar as fontes de uma fuga de informação sobre a identidade de uma agente secreta da CIA. Esta notícia parece algo paradoxal. Como é possível que uma jornalista de tão elevada exigência ética seja despedida por um dos jornais mais influentes do mundo? Mais estranho ainda é que não tenha havido nenhum movimento de jornalistas em favor da sua colega e muitos tenham manifestado as suas dúvidas acerca dos verdadeiros motivos do silêncio desta jornalista. A explicação de tudo isto está no facto de Judith Miller ter sido a jornalista que mais prolificamente escreveu sobre as armas de destruição maciça de Saddam Hussein e mais zelosamente defendeu a tese de que tais armas existiam. Com fortes ligações aos neoconservadores que dominam a administração Bush, Miller teve acesso a informação confidencial que alegadamente justificava as suas reportagens e que pôde usar sob a condição de não a revelar, nem sequer aos próprios directores do NYT» (Boaventura Sousa Santos, «Ética Jornalística», Visão, 24 de Novembro 2005, pág. 58). Texto a desenvolver na aula

d) «Em finais de Maio do ano passado, o ex-ministro da Saúde Correia de Campos contou, durante um debate que decorreu na Escola Nacional de Saúde Pública (Lisboa) este caso. Reproduzo-o da forma como o fixei:
Como ministro apanhou uma chamada "crise das meningites" e viu-se pressionado pela opinião pública a autorizar um plano de vacinação que permitiu a um laboratório vender 10 milhões de euros de vacinas em 15 dias.
Correia de Campos disse nesse debate que, mesmo nessa altura, achava o plano desnecessário. Mas autorizou. Porquê?
O ex-ministro falou na existência de uma cabala, envolvendo o referido laboratório (que não citou), uma empresa de relações públicas (que não nomeou) e delegados de informação médica, transformados em informadores. Mal sabiam de mais um caso, avisavam o laboratório, que avisava a empresa de RP, que avisava os jornalistas. Ainda antes do ministro saber…
Quando Correia de Campos aparecia em público, os repórteres confrontavam-no com "mais um caso sr. ministro. Que pensa fazer?".
O ministro cedeu e autorizou o plano
.». Caso a desenvolver na aula

e) A 11 de Maio de 2006 Manuel Maria Carrilho apresenta o seu livro «Sob o  signo da verdade» em que diz que foi vitima de uma conspiração de jornalistas, comentadores e uma agência de comunicação para o derrotar nas eleições autárquicas que deram a vitória a Carmona Rodrigues em Lisboa. Carrilho fala em manipulação e numa entrevista à RTP diz que «existe uma corrupção generalizada muito difusa» envolvendo jornalistas e a actividade das relações públicas. Carrilho acusa António Cunha Vaz, director de uma agência de comunicação, que lhe terá oferecido os seus serviços, com o argumento de que «tudo se compra».

4)      Que pontos de contacto existem entre estes casos?

- a ideia de que vale tudo (ou quase) para manipular a opinião pública

- a ideia de que os políticos ou se servem ou acusam os jornalistas

- a ideia de que os jornalistas são as primeiras vítimas ou armas/ferramentas dessa manipulação

- a ideia de que os jornalistas não percebem ou percebem demasiado tarde que são arrastados para essa manipulação

Objectivo para os alunos:

a partir do caso de Manuel Maria Carrilho (e das informações que recolherem entretanto) responder a esta pergunta: um enquadramento diferente da actividade das agências de comunicação em Portugal poderia ter evitado as acusações de Manuel Maria Carrilho?

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